[Venenum Saltationes] A Dança & O Tarot – O Mago

por Hölle Carogne

The Conjurer by Hieronymus Bosch

93!

Bem-vindos à Venenum Saltationes, nosso refúgio ocultista dentro do Tribal!

Prosseguiremos com o nosso estudo sobre “Dança & Tarot” com o Arcano 1 – O Mago!

"Com a Baqueta Ele cria
Com a Taça Ele preserva
Com a Adaga Ele destrói
Com a Moeda Ele redime!"

Liber Magi vv 7-10


Baralho de Marselha e de Rider Waite

 
Representação:

Um prestigiador (mágico, feiticeiro) em frente à uma mesa com três pernas, na qual há diversos objetos ligados aos elementos (armas elementares). Segura um bastão com saliências arredondadas em ambas as extremidades, que poderia representar tanto a polaridade dupla da eletricidade e o bastão oco de Prometeu, que traz fogo do céu. Usa um chapéu cuja forma lembra a lemniscata: o símbolo algébrico de infinito (  ).

Baralho Etteilla – segunda versão 1840

O Mago, também conhecido como Prestidigitador, Malabarista, Pelotiqueiro, Bufão, Acrobata, Cômico, Magista, Mensageiro, Mercúrio, Hermes e Thoth é o transformador e o Manifestador, capaz de "transformar qualquer coisa em ouro através do seu toque de Midas". Ele é o mensageiro dos deuses, representando precisamente a Palavra de criação, cujo discurso é silêncio.

Esta carta se refere à letra Beth, que significa casa, e é atribuída ao planeta Mercúrio. 
O título francês desta carta no baralho medieval é Le Bâteleur, o portador do Bâton. Mercúrio é preementemente o portador do Bastão: Energia Emitida.

Esta carta representa, portanto, a Sabedoria, a Vontade, a Palavra, o Logos pelos quais os mundos foram criados.

Nesta carta a ênfase é sobre o caráter criativo e dualístico do caminho de Beth. Caminho da Árvore da Vida - de Kether à Binah (a compreensão).

Sendo a Palavra, ele é a lei da razão ou da necessidade ou acaso, que é o significado secreto da Palavra, que é a essência da Palavra e a condição de seu pronunciamento. Sendo assim, e especialmente porque ele é dualidade, ele representa tanto verdade quanto falsidade, tanto sabedoria quanto loucura. Sendo o inesperado, ele desestabelece qualquer idéia estabelecida e, portanto, é enganador. Ele não tem consciência, sendo criativo. Se não consegue atingir seus fins através de meios limpos, ele usa meios sujos. As lendas do jovem Mercúrio são, portanto, lendas da astúcia. 

A Manifestação implica na Ilusão.

Magician - Etteilla's Tarot Égyptien 

Estrutura Mística:

  • Posição normal: Habilidade, espírito de iniciativa, diplomacia, ausência de preconceitos.
  • Posição invertida: Falta de escrúpulos, julgamento incorreto, falta de responsabilidade, caos.
  • Sentido geral: Franqueza, reinício, surpresa.
  • Sentido espiritual: Sabedoria da magia.
  • Símbolo: A lemniscata como símbolo da perfeição, o destino.
  • Arquétipo: O Mago.
  • Objetivo: Busca, estar no caminho.


The Juggler by Austin Osman Spare

 
Interpretações usuais na cartomancia:

Destreza, habilidade, finura, diplomacia, eloquência, capacidade para convencer, espírito alerta, inteligência rápida, homem inquieto nas suas atividades e negócios.

  • Mental: Facilidade para combinar as coisas, apropriação inteligente dos elementos e dos temas que se apresentam ao espírito.
  • Emocional: Psicologia materialista; tende para a busca das sensações, do vigor, da qualidade criativa. Generosidade unida à cortesia. Fecundidade em todos os sentidos.
  • Físico: Muita vitalidade e poder sobre as enfermidades de ordem mental ou nervosa, neuroses e obsessões. Indica uma tendência favorável para questões de saúde, mas não assegura a cura. Para conhecer o diagnóstico é necessário considerar outras cartas.
  • Desafios e sombra: Charlatão persuasivo, sugestivo, ilusionista, intrigante, politiqueiro, impostor, mentiroso, explorador de inocentes. Agitação vã, ausência de escrúpulos. Discussões, brigas que podem se tornar violentas, dado o vigor do personagem. Mau uso do poder, orientação defeituosa na ação, operações inoportunas. Tendência à dispersão nas ações, falta de unidade nos processos e atividades. Dúvida. Indecisão. Incerteza frente aos acontecimentos.


Tarot de Thoth 


Curiosidade: "Por que existem Três Magos no Tarot de Thoth?"
http://ladoocultodaweb.blogspot.com/2009/08/porque-existem-tres-magos-no-tarot-de.html

The Magician – Datura Tarot by Rachel Brice

Na minha opinião, o Datura Tarot é o melhor trabalho de tarot existente no “meio tribal”, superando até mesmo o deck da Anandha Ray e ultrapassando, infinitamente e com maestria, o House of Tarot, da Zoe Jakes.

Certamente é o trabalho mais próximo da simbologia mística dos arcanos.

Falarei de Anandha Ray e Zoe Jakes em breve. Por enquanto, me detenho apenas aos trabalhos encontrados que fazem referência ao Arcano 1. Porém, eu precisava fazer essa comparação e dizer que o Datura até agora é o meu preferido!

Enfim, a Rachel faz um trabalho curioso, com colagens e arte digital. Ela não dá muitas explicações sobre o projeto e posta através do Instagram. Entretanto, as cartas possuem muita informação interessante e são muito fiéis à simbologia original.

O Mago, da Rachel, assemelha-se à uma criança/adolescente de origem indiana (?). Ele(a) está rodeado por dois felinos e por vários “corpos” que podem fazer alusão aos elementos alquímicos. Segura entre as mãos uma esfera (exatamente como no baralho de Marselha) e outras três esferas rodeiam a sua cabeça. O bastão está atrás do corpo da pessoa, como que pendurado nas costas. Ao seu lado pode-se ver uma adaga e um recipiente cerimonial, talvez uma alusão à magia do mago e seu poder ligado à alquimia.

Bravo, Rachel, sua espetaculosa!


Trabalhos coreográficos e performances:


1) Sirius Dance Center | Coreografia de Sonia Derega (Ucrânia)

Considerações: O trabalho (que assemelha-se à danças urbanas) traz muito bem a idéia do personagem “mágico” e utiliza o maior símbolo desta carta: o “bastão”, além de arriscar cenas de mágica durante a apresentação. Achei muito interessante e gostei das referências que usaram. Não fica claro se a coreografia tem ligação com o Tarot, mas com certeza as referências existem.


2) Arden Tarot Suite



Considerações: Não vejo absolutamente nenhuma relação com a carta.


3) Erika dell' Acqua (Itália)



Considerações: Melhor trabalho, na minha opinião. A bailarina, além de usar a mágica de forma muito interessante, faz alusões aos elementos da natureza, usados na alquimia. Finaliza a coreografia de forma grandiosa, trazendo para a cena, de maneira inesperada, um dos símbolos mais importantes desta carta: o bastão.


Infelizmente, acabamos nosso estudo do mês por aqui...

A escassez de material ocultista dentro da dança é muito real e fazer esta matéria tem sido uma peregrinação...

Agradeço aos que leram até aqui e à todos que acompanham a Venenum Satationes!

Se souberem de algum trabalho envolvendo o Tarot, enviem para mim!

Obrigada e até o próximo Arcano!

93,93/93


Bibliografia: 
  • Antigo Tarô de Marselha – Nicolas Conver;
  •  O Livro de Thoth – Aleister Crowley; 
  • Clube do Tarô.  



Confira as cartas anteriores:




[Resenhando RS] Curso de Formação em Dança Tribal com Joline Andrade em Caxias do Sul

por Roberta Pereira 
Grupo Mandal'azad - aluna do curso de formação 2018.


Sob a coordenação de Gabriela de Lima (RS), nos dias 09 e 10 de Junho de 2018, aconteceu em Caxias do Sul o primeiro módulo do Curso de Formação em Dança Tribal com Joline Andrade (BA).

Neste primeiro módulo Joline propõe uma imersão teórica sobre a historia da dança do ventre até o surgimento da dança tribal, e estudo teórico/prático sobre alguns ritmos do Oriente Médio.

Durante dois dias de encontro, Joline abre 'uma roda de bate papo' e aborda diversos segmentos de dança, como por exemplo as pesquisas do cinesiólogo húngaro Laban.



Em prática vimos movimentações que combinavam densidade, velocidade, fluidez e tridimensionalidade do corpo. Tudo isso através de uma abordagem totalmente atualizada e estimuladora.

Faltam mais dois encontros até a conclusão da programação do curso de formação, que será selada com apresentações dos alunos da turma na 2ª Edição do Tribal Sul Festival em 15 de setembro de 2018.

[Vida com Yoga] Posturas: Tadasana


por Natane Circe 


Também conhecida como Samasthiti, Tadasana é uma daquelas posturas menos creditada em uma prática de yoga. Talvez por sua aparência simples e fácil, a famosa postura da montanha passa despercebida, sem suas devidas ações.
  
Assim como uma montanha, a tadasana tem a firmeza do elemento terra levando a energia para o núcleo e trazendo de volta até o topo da sua cabeça. Sendo assim, existe um contato com o material e espiritual pela primeira vez em sua prática.

Uma postura bem feita traz tremenda vitalidade, devido ao seu alinhamento e a facilidade da energia viajar pelo corpo. Além disso, aprendemos a ficar em pé novamente. Quantas vezes realmente ficamos saudavelmente de pé? O peso distribuído pelos pés, a coluna alongada, o olhar a frente... Ao mesmo tempo em que a tadasana traz energia, uma má postura a suga, e não é possível continuar ou retomar uma boa prática ou um bom dia sem as ações de uma postura em pé.

Entre outros benefícios da postura da montanha estão: leveza do corpo e agilidade mental; corrige a má postura; minimiza efeitos degenerativos; tonifica os músculos das pernas e nádegas, alinha e ativa os chakras, traz vitalidade e coragem.



Como montar a postura:

- Em pé, junte os dedões dos e os pressione no chão juntamente com os dedos menores e os calcanhares.

- Alongue as pernas elevando a energia pra cima, ativando as patelas dos joelhos e os quadríceps.

- Rotacione a musculatura das coxas para dentro

- Encaixe o quadril e contraia levemente as nádegas

- Contraia o baixo ventre e abra o coração levando os ombros pra trás e para baixo.

- Alongue o pescoço e sinta o topo da cabeça se abrindo para o teto.

- O olhar aberto em um ponto a frente.

- Encontre um equilíbrio entre força e relaxamento.



[Resenhando Argentina] Tiana Frolkina (Dragonfly Tribe) na Argentina

por Long Nu



Nos dias 25, 26 e 27 de Maio, em Buenos Aires, tivemos a presença da Tiana Frolkina (Dragonfly Tribe), direto da Rússia, num evento organizado pela Luisana Alvarez Ricciotto (diretora de Tribaleuse e Numaras, e FCBD ®  Sister Studio).

Começamos no dia 25 com o show de gala que reuniu várias profissionais da dança do ventre tribal em todas as suas nuances. Segundo o público, o show foi de um nível profissional poucas vezes visto num show de gala, com propostas cênicas e vanguardistas desde a composição até nos figurinos. A Gala contou com a presença de Numaras, Florencia Benítez, La Nouvelle Tribal, Alba Marina, Saturnus Devi Co., entre outros, além de alunas e ex-alunas avançadas da escola.  Teve também a presença de Mannaz e Yamila Mizrahi, ganhadoras de um concurso aberto a toda a comunidade do tribal para participar na gala. A Tiana e a Luisana fizeram um emocionante duo que recomendo que ninguém perca assistir.


No sábado, começaram as aulas com muitos alunxs do interior do país, além de muitxs brasileirxs que nos visitaram pro evento. Também, a noite, o evento teve show de mostras para que outros dançarinos pudessem compartilhar sua arte conosco.

As aulas surpreenderam xs alunxs com  trabalho expressivo e técnico, desde uma abordagem não tradicional no tribal e muito semelhante com o utilizado na dança moderna (free dance, expressão corporal e estilos afins).

Os workshops foram integrais, de alto  conteúdo emocional, onde a partir das consignas e da exploração se desenvolveram conceitos, ideias e movimentos. Tudo o que era trabalhado em cada exercício, juntava-se  num resultado, numa criação final pessoal e íntima, permitindo, assim, o nascimento de conteúdo inédito na dança dx alunx.


A Tiana provou ser uma professora completa, com uma visão apaixonada e profunda da dança, e ao mesmo tempo exigente com o  que esperava dxs alunxs, sempre exigindo-lhes para ir um passo além e desenvolver ainda mais seu potencial.

 A dinâmica dos workshops tiveram muita conexão entre a imaginação e o movimento, mas sem deixar de lado o tribal fusion. As técnicas experimentais ficaram em perfeita concordância com a dança do ventre, permitindo potencializá-las.  A Tiana foi um exemplo de humildade, de amor pela dança e a docência, se entregando ao 100% com profissionalismo e exigência.


No ano que vem, temos mais uma russa conosco: a Polina Shandarina. Ela estará em Buenos Aires  em um evento organizado também pela Luisana. Tomara que, mais uma vez,  tenhamos a visita de tantos irmxs brasileirxs!

Os vídeos do show estarão disponíveis em breve no canal do YouTube da Luisana, você pode conferir seguindo este link: https://www.youtube.com/user/Tribaleuse.

Enquanto esperamos, convidamos vocês com estas fotos do Show de Gala, capturadas por Anna Harff.


Alba Marina | Foto de Anna Harff

Florencia Benitez | Foto de Anna Harff 
Long Nu | Foto de Anna Harff


Luisana Ricciotto | Foto de Anna Harff

Mannaz | Foto de Anna Harff 
Numaras | Foto de Anna Harff
Saturnus Devi Co. | Foto de Anna Harff

Tiana Frolkina (Rússia) | Foto de Anna Harff

Foto de Tiana Frolkina (Rússia) | Foto de Anna Harff

Tiana Frolkina (Rússia) | Foto de Anna Harff

Duo Tiana & Luisana | Foto de Anna Harff

Duo Tiana e Luisana | Foto de Anna Harff

Duo Tiana e Luisana | Foto de Anna Harff

Tribaleuse | Foto de Anna Harff 
Tribaleuse | Foto de Anna Harff
Yamila Mizrahi | Foto de Anna Harff



[Resenhando Nordeste] Espetáculo Templo da Lua 2018

por Sarah Raquel
Foto de Jean Ribeiro

Templo da Lua é um festival organizado pelo Espaço Rayzel, uma escola de dança árabe, danças ciganas e tribal fusion em Fortaleza. Apesar de ser um festival anual, a cada edição é abordada uma temática, mas diferentemente das duas primeiras, esta foi transformada e pensada em forma de um espetáculo sensorial.

O espetáculo aconteceu no dia 26 de maio de 2018 e a ideia dele era que trouxesse para as cenas cores, cheiros e imagens que dançassem juntos com os corpos criando uma atmosfera mágica. Se constitui de sete contos que se passam em épocas e lugares diferentes mas que têm em comum a imagens de rituais, deusas e mulheres. Como a magia e os cultos ao feminino atravessam fronteiras e o próprio tempo e se reinventam em cada uma de nós.

Para isso foi necessário muita pesquisa sobre deusas em várias culturas, antiga suméria, Egito, índia, povos ciganos, África, povos celtas e fantasia. Os círculos de mulheres sempre existiram e sempre existirão. E com muito respeito e licença poéticas as histórias dançadas para o Templo da Lua. Em especial, esta edição reuniu coreografias de dançarinas profissionais e amadoras do Espaço Rayzel e de duas Cias: a Lunith e Etinique Tribe, mais dançarinas convidadas.

Cia Lunith e Etinique | Foto de Jean Ribeiro
Para finalizar, tendo participado de três edições, esta foi a favorita entre todas. Pela organização do espetáculo e todo o cuidado em respeitar a proposta do sensorial, um verdadeiro show visual com iluminação de palco calculadamente pensado, projeções que trouxeram algo palpável ao público e músicas que respeitavam a época e proposta de cada história contada.

Sendo uma das bailarinas convidadas, é incrível estar novamente rodeada com as mulheres do Espaço Rayzel. No mais, aguardo ansiosamente pelos vídeos do espetáculo, onde será possível ver pelo youtube oficial da escola.

Cena Afrodite | Foto de Jean Ribeiro

Cena Hecate | Foto de Jean Ribeiro

Cena Oxum | Foto de Jean Ribeiro

Cena Cigana | Foto de Jean Ribeiro





[Folclore em Dia] Ouled Nail

por Nadja El Balady



Este texto foi baseado nos artigos “The Ouled Nail” de Maggie Mcneil e “Dancing for Dowries part 2 – Earning Power, Ethnology and happily ever after” de Andrea Deagon.

No sul da Argélia, nas montanhas do Atlas, desde tempos imemoriais até hoje em dia (ainda) encontramos diversas tribos berberes vivendo e, de acordo com o possível, mantendo suas tradições. Estas tribos, islamizadas entre os séculos VII e VIII, têm seus nomes antecedidos pela palavra “ouled”, que funciona como um tipo de designação: Ouled Abdi; Ouled Daoud; Ouled Nail. Suas tradições se tornaram, a partir da década de 60, objeto de estudo das dançarinas de dança oriental no ocidente, sobre tudo das norte-americanas, que passaram a usar elementos desta etnia como inspiração para suas criações em dança.


Dentre as tribos citadas, Ouled Nail (leia-se: "wil-ed na-il") ganharam maior atenção por conta das características memoráveis das suas tradições femininas. Diversos pesquisadores ocidentais se interessaram pelo tema e em comum encontraram a informação de que as mulheres desta tribo, chamadas Nailiyat (singular Nailiya), costumavam se dedicar à dança e às artes eróticas durante um determinado período de sua vida. Segundo Maggie Macneil, as meninas nailiyat não eram forçadas a exercer esta atividade, possuíam poder de escolha e ainda assim muitas delas optavam por este caminho. 

A partir dos 12 anos, as meninas eram ensinadas por mulheres mais velhas da família (que poderia ser a mãe, uma avó, uma irmã mais velha, uma prima ou uma tia) e eram levadas para as cidades abaixo das montanhas para viver durante uma parte do ano e a trabalhar como dançarinas e prostitutas. Estas mulheres mais velhas eram responsáveis pelo bem estar da menina, cuidavam da casa e ajudavam a administrar os negócios. Esta era uma tradição que objetivava acumular dinheiro e joias de modo que, ao retornar definitivamente para suas vilas de origem, esta menina, já tornada mulher, pudesse ter independência financeira, pudesse comprar uma casa própria, investir em um negócio e, se quisesse, procurar casamento. Ao se casarem, tomavam uma vida comum, em um casamento fiel, como se espera de toda mulher casada.


Ninguém sabe dizer ao certo o período de origem desta tradição, mas é provável que seja muita antiga, anterior ao Islã, pois foram encontrados registros da presença das nailiyat na ocasião da chegada dos árabes na cidade de Bou Saâda no século VII. Bou Saâda (que significa “Lugar da Alegria”) era um dos principais destinos das nailiyat para sua morada temporária e comunidades inteiras compostas apenas por mulheres eram encontradas por lá. 

Nestas comunidades, segundo Andrea Deagon, os homens eram admitidos temporariamente como amigos, aliados, admiradores, parceiros de negócios ou parceiros sexuais, mas nunca em caráter definitivo. Algumas mulheres não chegavam a voltar para sua vila natal, preferindo a vida na cidade, abriam negócios, ou se casavam com estrangeiros.


Segundo Marnia Lazreg (1994), as mulheres das tribos Ouled Abdi e Ouled Daoud, conhecidas como Azriyat, também tomavam as profissões de dançarinas e prostitutas, mas somente quando eram órfãs, se tornavam viúvas, divorciadas, repudiadas, incapazes de se casar por algum motivo. Exerciam estas atividades até que conseguissem casar ou permaneciam sós.

É possível que a tribo Ouled Nail, tanto mulheres quanto homens, cultivassem conceitos diferenciados a respeito de sexo, casamento e amor. Encontramos no texto de Maggie Macneil uma passagem retirada do livro “Flute of Sand” (1956) de Lawrece Morgan que nos dá uma pista a respeito. Trata-se de depoimento de um homem da tribo sobre o casamento com uma mulher que tivesse seguido a tradição: 

 “Nossas esposas, sabendo o que é o amor, e sendo proprietárias de sua própria riqueza, vão casar apenas com o homem a quem amarem.  E, diferentes das esposas de outros homens, vão permanecer fiéis até a morte, graças a Allah.” 


Alguns pesquisadores adotam a linha de pensamento que as nailiyat dançavam para acumular dote, que o dinheiro arrecadado servia para atrair bons partidos. Esta ideia se tornou popular entre algumas dançarinas norte-americanas, ignorando sua prostituição e menosprezando sua independência financeira. É possível que esta interpretação seja fruto direto do machismo vigente no pensamento ocidental e tem origem na interpretação de observadores franceses que desde a ocupação francesa na Argélia, em 1830, que consideravam a tradição das nailiyat como uma espécie de rito de passagem antes do casamento. Andrea Deagon aponta para a importância de não diminuir, ou omitir, a atividade de prostituição destas mulheres, pois era um aspecto de uma cultura complexa onde as mulheres eram sexualmente livres e independente financeiramente.

Segundo Maggie Macneil, o contato com a cultura europeia, a partir da ocupação francesa, ao mesmo tempo em que as fizeram famosas, se tornando objeto de pinturas de artistas do período orientalista, trouxe a estas mulheres grandes transformações. Ainda na virada do século XIX para o século XX, mercenários franceses matavam as mulheres para roubar seu dinheiro e suas joias. Oficiais franceses passaram a sobretaxar as viagens e a residência em outras cidades que não suas vilas de origem. Durante a primeira guerra mundial, foram coagidas a trabalhar em cafés e casas específicas onde eram exploradas por homens. Algumas aderiram aos bordéis móveis de campanha, usados pelo exército francês até 1954 e pela legião estrangeira até a década de 90. 


No final da segunda guerra mundial, a vida de todo o povo berbere argelino mudou muito, pois o governo autoritário da época os obrigou a trabalhar nos campos da agricultura estatal.

Na década de 70, a dançarina norte-americana Aisha Ali encontrou um pequeno grupo de mulheres ainda vivendo e dançando em Bou Saâda. Sua pesquisa nos deixou registro muito importante do modo como se vestiam e movimentavam. A estética de movimento e figuro influenciou diretamente Jamila Salimpour e seu trabalho no grupo Bal Anat e como consequência, todo o Estilo Tribal de Dança do Ventre.

Seu modo de dançar, apesar de cobertas dos pés à cabeça, era considerado lascivo e escandaloso pelos estrangeiros. Muitos movimentos de encaixe pélvico e redondos, shimmies de ombro, lateralização de cabeça, movimentos de mão, cambrés, giros e o uso ocasional de lenços em ambas as mãos.

Vídeos de referência:








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