O limiar entre a fusão e o plágio

por Raphael Lopes

Olá queridos leitores!

Hoje venho abordar um assunto um pouco mais polêmico, mas de extrema importância para a construção de nosso próprio repertório de possibilidades experimentativas em cena. É a questão de influência X inspiração.

Temos hoje em dia a internet como ferramenta para pesquisa, o que nos põe em contato com diversas mídias e os mais variados estilos de dança. E ai surge a linha tênue que separa a fusão do plágio.

A proposta de fusionar é uma leitura contemporânea onde a bailarina pode trazer para sua linguagem e expressividade cênica um movimento étnico ou de um estilo diferente. A proposta é claramente adaptar a DANÇA INSPIRADORA ao seu corpo de acordo com a movimentação tribal.

Independente do quanto as pessoas discutam a preponderância do ATS®  dentro da liberdade em fusionar, é sabido que grande parte das bailarinas usem o repertório de movimentos e combos do ATS®  para "temperar" sua dança e agregar, não apenas estética, mas uma coerência estilística. E claro, isso não é uma regra. Regras são mais específicas em danças clássicas, e no próprio ATS® , mas não no fusion.

Porém uma dança sem regra exige o dobro do bailarino: é ele quem deve definir o que pode ou não pode usar em cena, é ele quem vai definir a identidade de seu número. E ai surgem workshops em estilos diversos, algumas aulas aqui ou ali, e - de repente - surgem fusões com novas danças.

Eu como representante de uma dança clássica, sempre que dou minhas aulas e workshops gosto de frisar o que não pode em hipótese alguma ser fusionado, que são os elementos de caráter estritamente templário e que configuram uma característica ÚNICA das danças clássicas da Índia. Logo sou um profundo crítico das fusões com dança indiana, não como um regulador das possibilidades, mas como um analista do quanto a fusão foi feita com criatividade e respeito.

No Tribal Fest 2013 tivemos um número da britânica Jaydee Amrita fusionando bellydance com Odissi, com uma maquiagem de corpo azul numa clara referência à imagem de Kali.
A bailarina demonstra de início uma técnica forte, um bom domínio das ondulações de corpo e braços, e uma explosão em cena invejável. Poucas são as bailarinas com essa presença. Mas me parece que a personagem é um pano de fundo para sua costura com a fusão indiana: a música vira para uma Tala Beat Box e a bailarina executa uma rotina de exercícios de Odissi, com pequenas variações coreográficas - tudo feito com um trabalho impecável de tronco (o que a identifica como uma aluna com no mínimo um ou dois anos de estudo), mas sem as flexões de joelhos. Talvez tenha sido proposital, mas não creio que unicamente sair da "seating position" seja adequar o Odissi ao Tribal. Talvez a bailarina não se sinta a vontade em executar os movimentos vigorosos das pernas com uma demasiada flexão de joelhos - o que é muito comum mesmo em bailarinos puros de Odissi, mas sem uma maior dedicação à construção da técnica no corpo.


Os exercícios e combos usados também não somaram a personagem adotada, nenhuma referência à Kali foi usada em cena - apenas a roupa. Aliás, por falar em figurino, ela usou um par de guizos típicos de Bharata Natyam (numa fusão com Odissi?!), que é um dos elementos entregues à bailarinas mais avançadas e dedicadas ao clássico. Claro que qualquer bailarina possa usar uma tornozeleira, mas por favor, deixem os guizos específicos das danças indianas para as danças indianas!

Independente das escorregadas que ela deu na construção do número, foi um número impactante, e até mesmo ousado já que é difícil encontrarmos bailarinas que arrisquem fusionar com as danças clássicas indianas. E arriscar incorre no risco de erro, e acredito que é preciso tentar, mas acima de tudo ter alguma boa assessoria e consultoria para não cometer nenhuma gafe em cena.  Isso corrobora apenas o quanto as pessoas desconhecem dança indiana, e do quanto a dança indiana não é um elemento tão presente no Tribal.

Esse ano Jaydee retornou ao palco do Tribal Fest, dessa vez com um headpiece inspirado em Cleópatra ou Aset. Eu particularmente senti falta de uma saia plisada (tão característico do Egito), e de um figurino que se harmonizasse com o esplendor do adorno de cabeça... enfim.


A música começou com uma sucessão de deuses egípcios serem honrados (me parecia uma gravação feita a partir de uma música do filme "Principe do Egito") e de repente a bailarina entrou novamente numa fusão indiana ao som de uma Tala. Ai aconteceu algo que eu reprovo com avidez: Plágio. A partir dos 4:04 ela reproduz uma sequência completa de uma dança de repertório da dança Odissi. Não era uma fusão. Não era uma releitura. Nem uma inspiração. Era o Bhumi Pranam do Mangalacharam, seguido por uma porção de movimentos de Bharata Natyam e pequenos combos de Odissi entrecortados com ondulações.... até o final. E onde ficou Cleópatra? E aquela porção de nomes egípcios no começo? Me pergunto até agora....


É muito importante que as bailarinas tenham responsabilidade com suas criações, que saibam ser coerentes e ricamente criativas em cena. Que possam subir nos palcos com a consciência que sempre haverá alguém na platéia que irá destrinchar sua dança, e reconhecer os pontos que você plagiou, ou costurou de forma parca. Dançar é uma experiência lúdica, livre, e todos podem fazer o que bem entenderem. Mas dançar profissionalmente requer uma maturidade e um compromisso com o estudo e a performance.


A partir dos 3:30 você encontra a segunda sequência do Mangalacharan copiada pela bailarina em questão

Jaydee Amrita é uma bailarina de técnica atraente, com figurinos essencialmente bonitos, com quase nenhuma presença de ATS®  em seus combos, mas com uma fusão duvidosa com a dança indiana. Sei que algumas pessoas podem me julgar demasiadamente crítico, mas é preciso salientar que a Fusão é um campo de múltiplas opções - mas que essas opções não caiam no lugar comum da cópia, do plágio, ou da sobreposição de passos prontos, sobre uma música e contexto adverso.

Vou elaborar novas análises, de outras bailarinas que embarcaram nas fusões com as danças clássicas, e espero ajudar a comunidade tribal à entrar em contato com o encanto da dança clássica de forma respeitosa, consciente, e reverente.

Um abraço,

Raphael Lopes.


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