Navaratri e a produção cultural indiana

por Raphael Lopes

 Pandal de Durga, decorado na cidade de Calcutá

Olá queridos amigos,


A dança é certamente um dos maiores barômetros de uma cultura. A produção artística é reflexo do pensamento de uma sociedade, e do quanto a mesma disponibiliza recursos culturais e liberdade pessoal para que cada artista em isolado promova em arte um panorama maior de sua civilização.


É bem sabido que todas as culturas em seu princípio rudimentar tinha por base a celebração do mistério das forças que as circundavam, de modo que o movimento dos astros, os fenômenos sazonais, a guerra e sua sucessiva vitória, e por que não até mesmo a morte, eram festejadas com dança.

Dançar é uma das formas mais antigas de Orar que o homem descobriu. Uma experiência mística que sai da clausura de um monastério, trazendo para o palco da vida todas as suas emoções em forma de movimento.

A cultura indiana é uma das culturas arcaicas que ainda resistem ao tempo e todos esses milênios de cultura viva se refletem em sua produção cultural. Mas o inverso também pode ser equalizado: não seria a produção artística hindu um dos alicerces que preservaram sua cultura até a atualidade?

Arati nos pés do sagrado Rio Ganges após celebradas as Pujas

Eu arrisco afirmar que sim. E é justamente sobre um elemento central da produção cultural hindu que gostaria de me ater nessa publicação desse mês. É o Durga Puja (ou o Kali Puja), que estão envolvidos nas festividades conhecidas como Navaratri. Nava, significa "nove"; e Ratri, significa "noite". Nove noites de celebração à Deusa, que ocorrem sempre nos Equinócios (entrada do Outono e da Primavera), em que há diversas passagens onde Devi é a protagonista da salvação dos Deuses e dos três Mundos que compõem o Universo. A palavra Puja, que num primeiro instante pode ecoar como a saudação feita pelas bailarinas de American Tribal Style®, é na verdade um termo específico da liturgia hindu. Se trata de uma adoração elaborada às deidades, uma forma de prestar reverência e devoção, estabelecendo uma relação tátil com o sagrado por meio dos elementos que são ofertados às Imagens Devocionais: o Fogo da Lamparina, o Aroma dos Incensos, o Sabor das Frutas, o Frescor das Águas, a Vibração dos Mantras. Enfim, os elementos são purificados ao mesmo tempo em que purificam o celebrante num fluxo retroativo. 

Adorar as formas da Deusa por meio de presentes, festas e banquetes é uma consequência natural ao rito da Puja, e essa celebração é a forma social de se vivenciar o sagrado. Foi dai que surgiu a especializada casta de bailarinas totalmente dedicadas à produção artística nos Templos, ainda que diversas danças mais "simples" compunham as celebrações sociais. O Navaratri e a concorrida festa de Navaratri se assemelha muito com o nosso clima carnavalesco, ainda que nada possa se assemelhar ao espírito religioso que pervade essa festa. Nossa cultura no ocidente cingiu o sagrado do profano, de modo que todas as festas populares se tornaram demasiadamente comerciais e perderam todo o seu sentido religioso original. Na Índia, a festa e o rito caminham lado a lado. 

 Mulheres em festa na procissão de Durga, realizando a dança Dhunuchi com os incensos

A vasta mitologia indiana influenciou fortemente os cinemas, e Bollywood automaticamente, de modo que os filmes (em sua grande maioria, musicais) retratem as festas populares, ora com as danças clássicas (como executadas nos Templos), mas também as versões mais folclóricas e populares.

Os grandes dramas e paixões estrelados nessas peças ocorrem em paralelo aos festivais religiosos, de modo que os filmes indianos sempre nos trazem algum "sabor" dessas comemorações. O Durga Puja, por exemplo, é o cenário onde ocorre uma das mais célebres cenas de dança do cinema indiano, no filme Devdas (filme de Sanjay Leela Bansali). 


Além dos variados números de dança, esses filmes retratam também a moda e o vestuário, em partes influenciados pela estética, que recobre as próprias imagens das divindades. Em várias cidades da Índia, sendo Calcutá uma das mais aclamadas, existe até mesmo uma competição elegendo o bairro mais festivo e os altares mais bem produzidos. As danças que seguem a procissão das deidades até os rios sagrados que banham as cidades apinhadas são das mais variadas: danças envolvendo o malabarismo dos turíbulos e incensários; mulheres carregando bastões e dançando com suas amiga; saias, cheiros, e cores, muitas cores.

A dança é como a "respiração" que permeia a cultura; e é impossível dançar uma dança étnica sem a perspectiva de seu próprio Ethos. Dançar dança indiana não exige uma conversão ao hinduismo, mas exige uma profunda conexão com a cultura de modo que a dança possa assim respirar e exalar sua existência sobre os palcos tão distantes de seu berço natal.

 Bailarina de Kuchipudi, caracterizada como Devi

A dança Tribal tem um forte viés globalizante, mas ao mesmo tempo está se caracterizando como uma cultura nova. É um reflexo da aldeia global onde todos vivemos: onde podemos baixar um aúdio de derbak em poucos minutos no celular e importar acessórios dos quatro cantos do mundo pela internet. Mas, mais do que isso: dançar não é se fantasiar. Todos os mais lindos ornamentos serão apenas um acúmulo de exuberância sem sentido se eles não contarem uma história.

Hoje a Índia conta as glórias de sua Mãe Divina e toda a produção artística carrega uma parte dessa glória. Qual história sua dança quer contar?

Até a próxima,

Jaya Maa!!!


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