A Espanha e o Nordeste: Sobre flamenco, flamenco fusion e tribal brasil

por Karina Leiro



Na última publicação comecei a falar do flamenco fusion como fruto de uma inquietação, da contraposição de tradição e contemporaneidade manifesta no guarda-roupas de Takatatá, das pesquisas de movimento que surgiram dos meus primeiros contatos com o tribal e os trabalhos que resultaram disso. A próxima etapa desse percurso foi me questionar quem sou eu no meio de todo esse processo. Nordestina, nascida na Bahia, morando em Recife, filha de pai e mãe espanhóis, perpassada pela cultura dos meus pais, em contato constante com a Espanha desde pequena, contato ora presencial, ora através da minha família de imigrantes, dos seus costumes, da convivência com a colônia espanhola em Salvador. Contudo, por outro lado, se eu sou geneticamente espanhola e com traços dessa cultura no meu cotidiano, também sou nordestina de nascimento e imersa na cultura do nordeste. Sou aquela que, desde pequena, comia as comidas espanholas que a minha mãe fazia, misturando-as com farinha de mandioca.

Quando vim pra Recife em 2010, fui chamada por Alê Carvalho para dançar no seu grupo, o Aquarius, no qual fiquei de meados de 2010 até meados de 2011. Nesse período, baseada numa belíssima proposta musical de Andressa Máximo, Alê Carvalho e Tamyris Farias e, tendo Tamyris como co-coreógrafa, montei Andaluz. Trabalho cujo título faz referência à Andaluzia, região ao sul da Espanha onde o flamenco nasceu. A música, foi uma montagem que iniciava com um canto de aboio (canto do vaqueiro na sua lida com o gado), passava por um trecho de música armorial, entrava na música "A Devastação da Calma" ou "A Tempestade", do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, e terminava com uma marcação de compasso por Sevilhanas, música flamenca de ramificação folclórica.

Ao ouvir a proposta musical, as relações foram surgindo, as imagens e os sons: o aboio gravado no sertão, que me remete ao cante jondo do flamenco (aquele canto andaluz de profundo sentimento), o boi do bumba e o touro das touradas espanholas, a viola nordestina, de comprovada influência ibérica, tocada pelo Cordel do Fogo Encantado num ternário que me remetia às minhas tão conhecida sevilhanas. Os passos do coco nordestino e sua semelhança em mecânica e marcação com os passos das sevilhanas. A dança flamenca, o flamenco fusion, o tribal brasil. O sertão nordestino e a aridez da Andaluzia!!!

Segue vídeo do Andaluz que apresentamos, já pela Cia Lunay, no Campo das Tribos em 2012. Nesse vídeo, dançamos Daniela Albuquerque, Tamyris Farias e eu.









Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Lindo texto. Realmente um reflexo do seu trabalho, da sua dança, da sua alma

    ResponderExcluir

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...